AURÉLIA

De todas as coisas que eu me lembro daquela época, a primeira delas é o suco de gelatina Royal.  A segunda é o cheiro da merda do meu pai.  Então se me pedissem para contar uma história de infância (e eu não mentisse) seria mais ou menos assim:
Naquele tempo o apartamento era muito pequeno e do meu quarto se ouvia tudo. E se me perguntassem que “tudo” é esse, eu diria que é tudo que as pessoas não querem que seja escutado dentro de um banheiro. Mas eu era jovem o bastante para não entender o conceito de privacidade e curioso o suficiente para acordar todos os dias as seis quarenta e cinco manhã. É a hora que meu pai caga. Cagava. Se existir algo depois da vida, meu pai provavelmente continua acordando as seis e quarenta e cinco para cagar no além. Mas então: a vida de certas pessoas já começa de maneira mentirosa. E acho que provavelmente eu sou uma dessas pessoas, porque se perguntassem para a minha mãe que horário eu costumava acordar quando eu era criança, ela responderia “sete da manhã” com aquela voz que as pessoas fazem quando estão certas em algo. Ou acham que estão. A verdade é que eu passei todos esses anos com dois toques de acordar: o oficial berro da minha mãe e o clandestino primeiro peido da manhã. Meu pai era daquele tipo de pessoa que antes de cagar soltava um peido enorme e barulhento. Talvez outra pessoa na mesma idade e situação ficasse irritada. Talvez algum filho em um universo paralelo igual ao nosso sentisse nojo. Mas eu não. Aquele peido era o trompete de guerra de uma batalha que eu queria escutar. Era o anuncio antes do bombardeamento. E nesse momento eu já estaria com a orelha colada na parede que fazia a divisória com o banheiro me preparando para ouvir o barulho da agua sendo perfurada pela merda. Ploft. Ploft. Ploft. Três montes de merda. Três mísseis de guerra e depois uma tossida que selava a paz do vaso sanitário. Naquela época, é claro, eu não poderia adivinhar que conheceria Aurélia.
II
Na primeira vez que vi Aurélia fiquei louco com a quantidade de comida que ela conseguiu colocar para dentro. Era festa de fim de ano da escola e pensei que ela fosse uma das secretárias, porque uma professora nunca comeria igual uma porca na frente dos pais e mestres. Depois fiquei sabendo que ela trabalhava na sala de informática e me dei conta de que nunca tinha levado meus alunos para lá. Sempre achei a sala de informática estúpida e suja e continuei achando, mas comecei a levar a turma das quartas sempre que podia. Quando eu chegava ela sempre estava comendo um daqueles pacotes de Negresco e tentando disfarçar os farelos que caíam encima do teclado. Eu geralmente botava os alunos para fazer aquele exercício de escreva-o-final-da-história e ia falar alguma coisa com ela do tipo “muito movimento na sala hoje?”. Ela respondia com um “uhum” e eu ficava imaginando que ela deveria se achar muito recatada por me dar pouco papo e manter os botões daquela camisa fechados até a gola.
Levou umas oito aulas até sair comigo. Primeiro pensei em levar Aurélia em um restaurante francês metido a besta que fica perto da minha rua. Depois eu lembrei do tamanho das comidas e chamei ela pro  Petro Bembo. O Bembo é caro o suficiente para uma mulher se sentir refinada e barato o bastante para se pagar pratos grandes. Ela estava com um daqueles vestidos comportados que vão até depois do joelho e a estampa combinava com a toalha de mesa. A toalha de mesa do Bembo é uma das coisas que me faz comer lá mesmo sozinho. Mas voltando a Aurélia: pedimos dois pratos de massa e uma salada com nome pretencioso. O problema em pedir os pratos é que logo depois começa a parte ridícula de fingir interesse no que a outra pessoa está falando e esse problema duplica caso vocês trabalhem no mesmo lugar.  Foi assim que eu ouvi durante vinte minutos sobre o abaixo assinado feito para que cor de giz azul volte a ser incluída no orçamento do material escolar do próximo ano. Pelo visto eu fui o único professor que não notou a imensa injustiça que estamos sofrendo. Quando Aurélia começou a falar da importância pedagógica da cor azul comecei a calcular o número de quadrados verdes da cortina. O meu maior problema quando eu fico entediado é que eu nunca fico só entediado. Geralmente eu sinto uma puta raiva junto e uma vontade de fazer com que a pessoa se sinta mal por estar gastando o meu tempo. Enquanto eu contava todos os quadrados concordei com a cabeça todas as vezes em que eu ouvi falar em Paulo Freire e quando eu cheguei no quadrado 75 o garçom chegou com as massas. Foi então que eu lembrei porque tinha me interessado por aquela mulher.

III
Aurélia é uma daquelas pessoas que enfia enormes garfadas na boca como se estivesse comendo a única refeição do dia. Esses modos de pobre devem ter afastado mais de um homem, mas a verdade é que a cada garfada eu ficava mais louco. Se naquele momento todas as toalhas de mesa do Bembo fossem levantadas, o restaurante inteiro veria meu pau apontado para Aurélia. Esfomeada, ciscando os últimos fios do prato. Ignorante da acusação da minha piroca que pulsava a cada garfada. Quase inocente no vestido de crente que destoava com os modos de porca na mesa. Se só por um instante, por algum truque barato Aurélia ganhasse visão de raio x, veria que meu pau estava soltando as primeiras gotinhas em homenagem ao seu estômago inchado. Caso Aurélia pudesse ser comandada por pensamentos levantaria da mesa agora mesmo, baixaria a calcinha com seu pudor de evangélica e me esconderia embaixo do seu vestido. Seguro de olhos alheios, eu começaria a lamber seu cuzinho como pedido para que ela relaxasse, fechasse os olhinhos e soltasse o primeiro peidinho na minha boca. Aurélia me teria ajoelhado, suplicante por cada bolacha, cada fio de massa e cada colherada de pudim alojada no seu intestino. Quase consigo sentir o gosto da merda de Aurélia: quente, densa e adocicada. Se Aurélia prometesse comer assim pelo resto da vida eu transformaria a tampinha dessa coca cola light em aliança e a pediria em casamento.
Eu acordaria todos os dias, pelo resto da minha vida, para ouvir Aurélia cagar.
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