JULIA

Nesse exato momento, Julia está cagando. A verdade universal é essa: toda mulher caga. Eu cago, vocês cagam, as irmãs de vocês cagam. Como Júlia, que nesse instante se encontra temporariamente ligada a agua da privada por um espesso fio de merda, tal como um bebê ligado a mãe. Provavelmente ninguém sabe que fazer cocô é uma atividade zen para ela, uma espécie de ritual que se inicia com a escolha da revista adequada e termina quando o ultimo submarino naufragar nas aguas do vaso. Pensando bem, talvez em uma sociedade diferente da nossa considerássemos bonita a cena que se passa no banheiro nesse exato momento, mas bem verdade é que o único espectador de Julia agora é Reynaldo Gianecchini segurando um relógio Swatch. Apertado firmemente nas suas mãos, nem Reynaldo propaganda, muito menos o Reynaldo carne e osso poderiam adivinhar que há poucas horas atrás Julia estava com a calcinha enterrada no cu no aeroporto Salgado Filho, sem previsão para alívio imediato em função do numero de pessoas ao seu redor, todas em busca da liberdade do cárcere aeroviário que aqui é entendida por suas respectivas malas. Quando já estava cogitando seriamente a possibilidade de dar só uma ajeitadinha por cima da calça, Julia vê sua mala. A alça falsamente anatômica se acopla rudemente aos seus dedos e ela faz a promessa pessoal de nunca mais comprar nada na Voluntários da Pátria. Trôpega para o lado em que carrega seus pertences, Julia caminha atrás de uma gorda loira para retirar seu carro do estacionamento. Enquanto conta o número de caspas do pescoço da moça, ela o vê. Não tem dúvidas de que seja ele, pois é adepta a teoria de que após ver um homem pelado várias vezes é possível reconhece-lo em quaisquer circunstancias. Subitamente uma onda de pequenos choques acomete os intestinos de Julia, que decide aumentar o passo rumo ao estacionamento, sempre olhando em direção oposta a dele. Ao apertar o terceiro andar do elevador, já esta sendo acometida por uma vontade sincera de peidar, mas é impossibilitada pela presença de um senhor grisalho que aperta o botão do quinto piso. Então uma nova meta é criada: peidar ao chegar no carro. Só faltam poucos passos, e Julia quase pode sentir a pressão anal se dissipando em forma de gás quando percebe que não está sozinha. Do lado do seu carro está ele. Milhares de frases de facebook começaram surgir em sua mente em forma de mantra, intercalados de desculpas plausíveis para não comparecer ao reencontro da faculdade que acontecerá de noite. Mas é tarde, é tarde para frases de superação e mais tarde ainda para inventar alguma frase inteligente, pois a boca dele se abre em:

–  eai…te vi ali na fila das malas, tudo bom? Vai hoje?

Tudo bom UMA MERDA, Julia está agonizando! Todo seu corpo está concentrado em apenas um doloroso ponto de pressão do seu corpo, toda Julia se resume em seu cu, Julia é seu cu, o mundo inteiro é o seu cu e tudo o que seu cu pede é: deixe-me ir. Sua boca se abre para responder Flávio, mas seu cu é mais rápido. Se algo vai abrir naquele corpo é ele, ah sim, é ele! Está indo, indo, indo!

Foi.

Com essa única resposta não verbal, entrou no seu carro. Aliviada, dirigiu até seu apartamento, encontrou a Veja da semana passada. Nesse exato momento, Julia está cagando.

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9 comentários em “JULIA”

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