FILHOTE

Quando eu tinha doze anos roubei uma fralda geriátrica da farmácia do meu bairro. Nunca mais roubei nada na vida. Estava com a minha mãe e lembro de estar fazendo muito frio na rua, acho que era julho ou agosto. Nós morávamos em um apartamento minúsculo que ficava em cima de uma galeteria. Eu não ficava sozinho ainda e minha mãe precisava comprar pasta de dente, então vesti um casaco por cima do pijama e pegamos o elevador. Naquela época era muito comum eu fazer isso de botar roupa por cima do pijama, talvez porque toda hora minha mãe inventava de sair pra fazer qualquer coisa e eu queria estar sempre junto. Quando chegamos na farmácia ela lembrou de mil outras coisas que queria comprar (minha mãe adorava farmácia) então fiquei andando entre as prateleiras olhando os desodorantes, até que vi uma fralda aberta naqueles suportes que fazem propaganda dos produtos. Do lado da fralda tinha a imagem de dois velhinhos sorridentes em uma praia. Puxei a fralda do suporte e coloquei debaixo do meu casaco.

Até hoje não lembro de ter ficado tão nervoso quanto eu fiquei na hora que passamos pelo detector magnético da saída. Não consigo me lembrar de nada que minha mãe falou até chegarmos no elevador. Sei que quando entrei no quarto tranquei a porta com cuidado (raramente trancava) e coloquei a fralda encima da cama. Fiquei um tempão lá, só olhando para ela. Alguma hora criei coragem e resolvi tirar a minha calça. Até eu colocar a fralda demorou mais uma meia hora. Não queria que a minha mãe escutasse o barulhinho estranho que as fitas colantes faziam. Me lembro de ter colocado ela e ter ficado de pau duro. Levantei a andei pelo quarto sentindo o tecido macio da fralda em contato com as minhas bolas. Queria me ver, mas não tinha espelho no quarto e andar até o banheiro seria muito arriscado.

Guardei a fralda embaixo da cama e destranquei a porta. Levou um bilhão de anos até terminar a novela. Quando finalmente começou a tocar a música dos créditos ouvi a minha mãe desligar a tv na sala. Ela andou até meu quarto e me deu boa noite. Esperei outra eternidade até escutar silêncio no quarto dela. Me levantei, vesti a fralda (novamente duro) e fui para frente do espelho do banheiro. Subi no vaso para me olhar de costas e continuei duro, muito duro. Me olhei de todos os ângulos e comecei a ficar eufórico de verdade. Voltei para o quarto engatinhando. Hoje quando me lembro disso vejo o quando eu fui louco de me arriscar a ser pego de quatro andando pelo corredor com uma fralda geriátrica na bunda.

Fechei a porta do quarto e subi na cama. “Vou mijar”, pensei. E fiquei mais duro. Não ia conseguir mijar daquele jeito e cada vez que pensava em molhar a fralda começava a latejar mais. Então meti a mão pra dentro e puxei a pele para trás, esfregando a cabeça da rola no algodão. Lembro de ficar passando o pau em todas as partes da fralda. Macia. Quentinha. Gozei. Deitei de lado com o coração dando pulos. Hora do nenê fazer xixi. Relaxei a bexiga e senti a fralda absorver os dois copos de agua que tinha tomado depois da janta. Levantei da cama para sentir melhor o peso da fralda encharcada.

Passei anos juntando o dinheiro da merenda para comprar fraldas geriátricas AdultHealth tamanho M. Claro que morando sozinho as coisas melhoraram muito. Não preciso esconder pacotes no fundo do armário nem sair com fraldas sujas dentro da mochila (nunca usei o lixo de casa). Tenho a geladeira cheia de papinha e leite sem lactose. Claro que esperar todos os dias para chegar em casa e fazer pipi é um pouco perigoso. Tem dias que não consigo segurar e faço no carro. Nesses dias choro no estacionamento e depois mando lavar tudo. Quando andava de ônibus era pior.

 Mas já me acostumei. Afinal, sou só um filhote.

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3 comentários em “FILHOTE”

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