MARINA

Veio até meu ouvido e disse:

– A gente se vê no domingo, né?

Ela não me viu no domingo e não viu mais ninguém. A filha da puta teve uma parada respiratória às duas da tarde de sábado. Ficou me devendo um boquete.

II

Eu juro que se fosse louco (e não sou) eu abriria a minha calça no meio desse velório e colocaria meu pau na tua boca. Imagina só a cara da tua família quando me visse empurrando essa tua cabeça loira contra a base do meu cacete. Provavelmente a tua mãe soltaria um daqueles gritinhos perua-louca e teu primo me puxaria para fora da sala. “O tumor atingiu o cérebro dele”, teu pai ia dizer para os convidados e ia ligar para meus pais virem me buscar.

Mas o tumor ainda não atingiu meu cérebro e eu sei disso, tu sabia disso e nesse momento eu começo a dar umas risadinhas na frente desse teu corpo lindo e mais branco do que nunca, sei que essa minha ideia do boquete te faria se cagar de rir e por isso rio um pouco mais, percebo que as pessoas estão olhando e começo a disfarçar o riso com uma tosse louca antes que alguma tia gorda tua venha me perguntar qual é a graça.

Ninguém deveria morrer enquanto ainda consegue foder.

Eu me lembro muito bem do dia em que tu entrou no corredor com esse cabelo comprido quase encostando nas rodas da tua cadeira, lembro como se fosse ontem e olha que já passaram cinco meses, pode parecer tão pouco para esses porcos saudáveis mas para nós era tanto,  deve ser por isso que tu me deu aquele oi tímido, aposto que se as pessoas soubessem que vão morrer nos próximos meses dariam oi para todo mundo e o mundo ia ser uma espécie de Tinder da vida real. Seria ótimo.

Só sei que lá fui eu arrastar meu suporte de soro para teu lado, “quimio as segundas, quartas e sextas” foi o que tu me disse e eu admito que só conseguia olhar para as tuas tetas, nunca tinha visto alguém com câncer ter peitos tão lindos e sei que nunca mais vou ver. Tu virgem, eu virgem. Levou duas semanas para a tua língua estar dentro da minha boca e minha mão debaixo da tua blusa.

Um mês depois e o que eu mais lembro é das tuas perninhas bem abertas na cadeira de rodas, tua boceta rosada me olhando e eu me abaixando como um corcunda para forçar meu pau para dentro, se alguém entrasse na salinha de espera aquele dia iria rir desse sexo aleijado, tu segurando as pernas e eu segurando a minha rola, nunca pensei que romper um cabaço fosse tão difícil mas também nunca pensei que ia ter câncer no estômago aos vinte anos, putinha.

Tu foi morrer justo agora que eu encomendei o Kama Sutra Ilustrado para Cadeirantes no site da Amazon.  Não que a gente precisasse dele depois de ter aprendido aquela malandragem de deixar as rodas da tua cadeira destravadas. Que descoberta. Eu sentado na beirada da poltrona das visitas te embalando para frente e para trás, vou te dizer que poderia passar a tarde inteira te fodendo sentado assim. Fui descobrir que teu cabelo era peruca em uma dessas trepadas, lembra? Não acho que morto lembre. Nós rimos tanto.

Admito que pensar que essa mesma peruca que está aí no teu cadáver balançava na minha mão aquele dia me dá uma vontade de chorar, cadela. Eu começo a chorar no meio desse teu velório de merda e as pessoas me dão tapinhas nas costas, vejo que teu pai começou a dizer algumas palavras, mas não consigo prestar atenção, tu foi embora sem nunca ter provado meu leitinho e eu vou acabar indo sem saber o que é ter a rola agasalhada por uma boca quente macia, ninguém devia morrer prometendo uma merda dessas, eu até poderia pagar uma puta para me chupar, mas qual é a puta que chupa um espinhento canceroso de vinte anos sem nojo? Só tu mesmo, vagabunda.

 Percebo que teu pai está quieto e agora todas as pessoas tão olhando para mim. Como vem gente em velório de jovem, né? Devem estar todos esperando que eu diga alguma dessas baboseiras de velório, que tu era gente fina e que todo mundo gostava de ti, como se esse teu cadáver anulasse o fato daquela enfermeira da ala pediátrica te odiar pra cacete. Eles continuam me olhando e agora tenho certeza que querem que eu fale alguma coisa, qualquer coisa sobre o quanto tu era alegre e contagiava o mundo com teu otimismo, com teu caráter, com tua força de vontade até o minuto final. Filhos de uma puta. Eu olho para a cara de saúde deles e digo:

– Foi uma baita de uma gostosa.

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15 comentários em “MARINA”

      1. Vi o cartaz do blog hoje, enquanto esperava pra almoçar no RU do Vale. Que grata surpresa.
        Descobri também que temos um amigo em comum, graças ao Facebook, hahahaha.
        Agora que já li tudo, te digo: obrigado.

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  1. Simplesmente apaixonada por voc e pelos teus textos… descobri hoje já nem lembro como kkk so sei que vc ganhou mais uma fã e eu vc pra idolatrar.
    Dona da Porra toda!!!!

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