JORGE RICARDO

Jorge Ricardo esteve aqui. Jorge Ricardo esteve aqui, esvaziou o armário da cozinha e encheu meu estômago de porra. Antes disso Jorge Ricardo brincou com o gato, fumou três cigarros e derrubou suco de laranja no tapete da sala. Jorge Ricardo contou piadas ruins e gargalhou. E agora os pelos do meu gato estão virados para o lado errado como se dissessem: Jorge Ricardo esteve aqui. Agora a mancha amarela no chão da sala me conta detalhes sobre as mãos de Jorge Ricardo, delicadas como a de uma mulher. Eu deito a minha bunda na cama e o cinzeiro do criado-mudo me diz que talvez eu não devesse mentir para Jorge Ricardo que também fumo, mas as paredes respondem que precisam daquela risada esfumaçada e eu prefiro dar razão a elas. Eu fecho meus olhos sabendo que deveria estar passando veja multi-uso naquela poça do tapete, sabendo que deveria fazer uma lista com as coisas que estão faltando no armário, mas eu fecho meus olhos com mais força e resolvo ficar parada, ciente que eu deveria estender meu braço e guardar na gaveta o cinzeiro que só sei de lá quando Jorge Ricardo vem, tendo certeza de que eu deveria tirar essas latas de Heineken da escrivaninha, mas ao invés disso eu bebo o restinho delas e começo a chorar porque algo me diz que dessa vez Jorge Ricardo não volta. Algo na maneira com que ele fechou a porta me disse que seria a última vez que Jorge Ricardo derrubaria algo no meu tapete, e sabendo disso eu me levanto e pego a última garrafa da geladeira enquanto lamento ter chamado a diarista para amanhã já que sei muito bem que ela vai esfregar o tapete, abrir as janelas e tirar com a vassoura cada resquício de Jorge Ricardo desse apartamento.

Jorge Ricardo não volta, eu digo para o gato. Não adianta me olhar assim que ele não volta, eu digo de novo. Jorge Ricardo não volta. Meu gato me ignora e eu começo a chorar mais alto e me dou conta de que ou corro para o vaso ou mijo na cama. Então eu abro a porta do banheiro e sou invadida pelo cheiro quente da merda de homem. Do meu homem. Eu tranco a porta, desligo a luz e começo a respirar fundo, cada vez mais fundo, meus pulmões cada vez mais cheios de cheiro de bosta e eu cada vez mais ciente de que essa vai ser a última vez que eu respiro o cheiro do Jorge Ricardo. Eu inspiro, respiro, inspiro não sei quantas vezes até começar a ter certeza de que não sinto mais a bosta, de que meu despertador vai tocar a qualquer momento e de que eu quero permanecer nesse banheiro para sempre, quero que o dia de ontem se repita para Jorge Ricardo cagar de novo no meu banheiro, eu quero que Jorge Ricardo cague no meu banheiro por todos os dias da minha vida, eu penso, e quando o despertador começa a tocar de fato eu caio de joelhos no piso frio, me inclino para o cestinho de lixo e abro com cuidado cada papel higiênico e quando me dou conta estou lambendo eles e algo dentro de mim me diz que é como lamber o pau de Jorge Ricardo ou qualquer outra parte dele. Minha boca tritura os pedacinhos de bosta e engole os últimos pedacinhos de Jorge Ricardo que sobraram.

Eu olho para a privada e choro enquanto vomito Jorge Ricardo da minha vida.

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5 comentários em “JORGE RICARDO”

  1. Oi, te conheci agora por causa daqueles milhares de compartilhamentos do conto que só fala verdades sobre a paternidade.
    Dai entrei aqui, li mais alguns e adorei. Tu era o que eu sempre quis ler, uma bukowski mulher ❤

    Curtir

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