JIBOIA AFRICANA

Ninguém gostou muito quando Carla adotou uma cobra.

“Não é qualquer cobra”, Carla dizia. É uma Jibóia Africana.

“Não deixa de ser uma cobra”, a mãe respondia.Carla respirava fundo e lembrava que morava sozinha e pagava as próprias contas e não tinha que dar satisfação a ninguém.

“É que a gente se preocupa”, a mãe dizia. Eu e teu pai e a Heloísa. A gente se preocupa.

Carla até tentava entender mas quando olhava para aquela pele brilhante e lisa esquecia o que a mãe estava dizendo. A Jibóia Africana era rara, difícil mesmo de encontrar. Carla tinha sorte. E além do mais, estudos comprovavam que ela só atacava se estivesse com fome e Carla nunca deixava ela com fome. Todos os dias comprava pedaços de frango no mercado.

Carla gostava de sentar na sala e ver a cobra se aproximar do frango e depois se enrolar no frango e engolir ele aos poucos, alargando primeiro a boca depois o corpo inteiro. A cobra ficava inchada e imóvel e depois parecia dormir.

Quando Heloísa ficou sabendo que a cobra comia na sala não quis mais ir lá. Depois a tia Marta espalhou no grupo da família que Carla dormia com a cobra e isso foi a gota d’agua para a tia Lourdes que começou a rezar para que um milagre acontecesse na vida da sobrinha. Alguém chamou Aninha, que estava quase formando em direito, pra ver se conseguiam tirar a cobra a força do apartamento. Não dava.

Carla era adulta e era a escolha dela.

A cobra foi ficando cada vez maior e Carla precisava comprar cada vez mais frango mas não se importava. Quando ficou maior do que a gaiola Carla começou a deixar ela solta, primeiro em poucas horas e depois quase sempre e depois sempre. Nas horas vagas chegava em casa, alimentava a cobra e ligava pra Heloísa, que quase nunca atendia e quando atendia dizia que não ia mais visitar e ponto final, não interessava se eram irmãs, a cobra era perigosa e além do mais Heloísa estava grávida

“Imagina se acontece alguma coisa comigo e com o bebê”

Nessa horas Carla lamentava, mas não queria se desfazer da cobra. Agora ela já tinha um metro e setenta mas a tia Lourdes dizia que tinha cinco e já tinha até colocado ovos. A cobra era macho e agora até avisava quando estava com fome.

Foi na terça feira depois do Natal que Carla comprou um peru enorme e inteirinho e levou para casa feliz da vida, mas quando chegou no próprio apartamento começou a sentir uma tristeza tão grande que nem ver a cobra sem conseguir engolir direito resolveu

Carla foi dormir de coração tão apertado que quando viu que tinha oito ligações perdidas no celular

soube mesmo sem ler as mensagens que Henrique tinha matado Heloísa.

Carla teve raiva porque sabia que homens matam bem alimentados, homens matam quando servem o jantar para eles e quando não servem. Homens matam quando suspeitam que foram traídos homens matam quando leem conversas de whatsapp como foi o caso de Heloísa. Homens matam quando dizem não para eles e

a cada duas horas um homem mata uma mulher no Brasil.

é mais seguro dormir com uma cobra.

mas homens são bem aceitos dentro de casa.

homens são aceitos dormindo na mesma cama e dividindo a mesma sala e comendo no mesmo prato e em salas cheias de crianças

Jibóias Africanas, não.

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Uma consideração sobre “JIBOIA AFRICANA”

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