Todos os posts de Osegundocu

DOUTORES DA ALEGRIA

Quando eu morrer, cinco imbecis usando jaleco e nariz de palhaço vão me receber no inferno.

Bem vinda, Carolina.

Depois vão puxar um livro infantil de uma bolsa amarela gigante e vão ler a história inteira fazendo voz de fantoche. Vão cantar músicas soprando uma gaita colorida. Por útimo, vão se despedir com um abraço coletivo. Vão retirar os narizes, guardar o jaleco e atravessar a rua para tomar suco de clorofila na lanchonete em frente ao hospital enquanto comentam como eu e os outros doentes somos corajosos.

“É tão bom levar alegria para eles”, diz Juliana, 25 anos, estudante de direito.

“Na verdade são eles que nos alegram”, concorda Márcio, 23, enquanto olha as horas para ver se vai chegar a tempo no curso de permacultura.

Doutor da alegria é o nome que se dá para jovem de classe média que tem fetiche na dor alheia. Quando eu estiver no inferno e um universitário de olhos verdes estiver enfiando um trompete de brinquedo no meu rabo eu vou encontrar forças para peidar até voltar para terra só pra criar uma lei universal que impeça um jovem adulto saudável de levar a sua alegria para uma criança doente. Acredite,

se você nunca comemorou ao tomar um prato de sopa sem vomitar

se você não mostrou para seus pais o prato de sopa vazio e disse olha, mãe

e viu um sorriso triste de volta

se a sua mãe não se escondeu no banheiro para chorar depois

se você nunca escolheu um desenho animado sabendo que talvez seja a última vez que você vai escolher um desenho animado na vida você não pode, eu repito, não pode, espalhar a sua alegria barata. Seu filho duma puta. Seu palhaço do inferno. Toda criança que dorme a base de morfina sabe mais sobre gratidão do que uma aula inteira de yoga. Toda criança que teve um transplante agendado para semana que vem deveria cobrar para ser vista por um par de olhos que nunca pegou nada além de gripe

Todo imbecil que pinta a cara deveria saber que cada maquiagem de palhaço feita equivale a um ano inteiro no inferno. Eu volto, eu repito: eu volto. E depois eu morro de novo só para pintar a palavra gratidão com a minha merda

na testa de vocês.

JIBOIA AFRICANA

Ninguém gostou muito quando Carla adotou uma cobra.

“Não é qualquer cobra”, Carla dizia. É uma Jibóia Africana.

“Não deixa de ser uma cobra”, a mãe respondia.Carla respirava fundo e lembrava que morava sozinha e pagava as próprias contas e não tinha que dar satisfação a ninguém.

“É que a gente se preocupa”, a mãe dizia. Eu e teu pai e a Heloísa. A gente se preocupa.

Carla até tentava entender mas quando olhava para aquela pele brilhante e lisa esquecia o que a mãe estava dizendo. A Jibóia Africana era rara, difícil mesmo de encontrar. Carla tinha sorte. E além do mais, estudos comprovavam que ela só atacava se estivesse com fome e Carla nunca deixava ela com fome. Todos os dias comprava pedaços de frango no mercado.

Carla gostava de sentar na sala e ver a cobra se aproximar do frango e depois se enrolar no frango e engolir ele aos poucos, alargando primeiro a boca depois o corpo inteiro. A cobra ficava inchada e imóvel e depois parecia dormir.

Quando Heloísa ficou sabendo que a cobra comia na sala não quis mais ir lá. Depois a tia Marta espalhou no grupo da família que Carla dormia com a cobra e isso foi a gota d’agua para a tia Lourdes que começou a rezar para que um milagre acontecesse na vida da sobrinha. Alguém chamou Aninha, que estava quase formando em direito, pra ver se conseguiam tirar a cobra a força do apartamento. Não dava.

Carla era adulta e era a escolha dela.

A cobra foi ficando cada vez maior e Carla precisava comprar cada vez mais frango mas não se importava. Quando ficou maior do que a gaiola Carla começou a deixar ela solta, primeiro em poucas horas e depois quase sempre e depois sempre. Nas horas vagas chegava em casa, alimentava a cobra e ligava pra Heloísa, que quase nunca atendia e quando atendia dizia que não ia mais visitar e ponto final, não interessava se eram irmãs, a cobra era perigosa e além do mais Heloísa estava grávida

“Imagina se acontece alguma coisa comigo e com o bebê”

Nessa horas Carla lamentava, mas não queria se desfazer da cobra. Agora ela já tinha um metro e setenta mas a tia Lourdes dizia que tinha cinco e já tinha até colocado ovos. A cobra era macho e agora até avisava quando estava com fome.

Foi na terça feira depois do Natal que Carla comprou um peru enorme e inteirinho e levou para casa feliz da vida, mas quando chegou no próprio apartamento começou a sentir uma tristeza tão grande que nem ver a cobra sem conseguir engolir direito resolveu

Carla foi dormir de coração tão apertado que quando viu que tinha oito ligações perdidas no celular

soube mesmo sem ler as mensagens que Henrique tinha matado Heloísa.

Carla teve raiva porque sabia que homens matam bem alimentados, homens matam quando servem o jantar para eles e quando não servem. Homens matam quando suspeitam que foram traídos homens matam quando leem conversas de whatsapp como foi o caso de Heloísa. Homens matam quando dizem não para eles e

a cada duas horas um homem mata uma mulher no Brasil.

é mais seguro dormir com uma cobra.

mas homens são bem aceitos dentro de casa.

homens são aceitos dormindo na mesma cama e dividindo a mesma sala e comendo no mesmo prato e em salas cheias de crianças

Jibóias Africanas, não.

RELACIONAMENTO ABERTO

Relacionamento aberto é coisa pra hipster sem filho, Carlos. Já te falei isso ontem e vou falar pela última vez: relacionamento aberto é coisa de quem vai na feira orgânica no domingo e depois aproveita para comer açaí com contato do Tinder.

Relacionamento aberto é pra quem bota camisa floral para se achar artístico enquanto senta na grama da praça. Sabe o que acontece se eu compro nessa merda de feira? Eu atraso o pagamento da creche da Antônia. Não tô exagerando, compara aí o preço do tomate pra ver. Aliás, aproveita e segura ela aqui pra eu arrumar a cama. Ih, tá toda cagada. Alcança uma fralda pra eu trocar ela rapidinho.

Imagina a gente num relacionamento aberto, Carlos. Dez horas da noite de sexta. Eu podre de cansada, a Antônia mais acordada que usuário de ácido e tu todo garotão se arrumando pra night. É justo, Carlos? Ta dizendo o que, que eu ia poder sair também? Imagina que louco eu lactante na balada, toda trabalhada no sutiã anti vazamentos. Ou eu explicando pro boy que mexer no meu peito não dá, to cheia de pomada cicatrizante nos mamilos. Bacana, Carlos?

Aí a gente abre o relacionamento e faz o quê? Calcula de novo a tabela de gastos do mês? Faz uma bolsa contatinho, uma cota Happn sendo que a gente nem pagou a última prestação da geladeira ainda? Vai me dizer o que, que se eu te amasse de verdade eu não iria te privar de experiência nova? Quer experiência nova, Carlos? Pega a caixa de ferramentas e desentope a pia da cozinha pela primeira vez na vida.

Relacionamento aberto é pra quem mora com a mãe, Carlos. Ou pra comunidade hippie. A gente ta vivendo numa comunidade hippie por acaso? A gente mora de aluguel, Carlos. A única coisa hippie aqui é o meu sovaco que só é cabeludo porque eu não tenho um minuto só pra mim.

A gente tem trinta e três anos anos, Carlos. Relacionamento aberto é pra recém formado quem quer absorver melhor de cada pessoa enquanto trabalha na agencia de publicidade. Eu nem quero ser feliz, Carlos. Não o tempo todo. Eu não quero o melhor de todo mundo, Carlos. Eu quero o pior de alguém comprometido em remar na mesma direção que eu. Eu quero ouvir som de peido vindo do banheiro. Eu quero mancha de papinha de bebe na gola da camisa.

Sabe de uma coisa, Carlos? Se tu fosse minimamente decente tu me trairia ao invés de sugerir uma relacionamento desses. Sem vergonha. Olha aí a Antônia que eu vou comprar pão e já volto.

OS VELHOS

Ando sentindo inveja dos velhos. Ando sentindo inveja dos velhos sem dentes, dos velhos com cheiro de naftalina, dos velhos que usam frutas de plástico para decorar a mesa da sala. Sinto inveja dos velhos que sofrem de artrite, de reumatismo, sinto inveja dos velhos que saem de casa para comprar bengalas, sinto inveja dos velhos ganharam andadores como presentes de Natal.

Sinto inveja dos velhos carecas que guardam loção para calvície no armário do banheiro, sinto inveja das velhas que tem restos de esmalte coral nas unhas dos pés. Sinto inveja dos velhos cujos filtros de água expiraram em 1998, sinto inveja dos velhos que não conseguem mais sentir o cheiro de podre da geladeira, sinto inveja dos velhos que esquecem a cortina do chuveiro aberta.

Sinto inveja desses velhos. Sinto mesmo.

Eles conseguiram
Eles triunfaram
Eles bem-sucederam

Eles pagaram os boletos, eles correram atras do ônibus, eles pagaram as prestações da casa. Eles abotoaram a camisa, eles trocaram a fralda das crianças, eles esperaram o caminhão da mudança, eles desentupiram a privada.

Eu sinto inveja dos velhos.

O buraco dos seus casacos são medalhas
Os seus dentes podres são troféus
As suas mãos tremem em comemoração à permanência.

Eu sinto inveja dos velhos que abrem o obituario do jornal e encontram amigos, inimigos, antigos amores.

Suas escolhas ja foram feitas
Seus problemas estão resolvidos
Seus dados ja foram jogados
Seus caminhos estão percorridos

Eu sinto inveja dos velhos que dizem que estão cansados
Pois eles podem estar.

Eu estou cansada.
Eu não sei se eu vou conseguir.

Eu sinto inveja dos velhos.

MARIA

Maria me perguntou se eu tinha morrido.

Respondi que eu estou vivo naqueles momentos em que a minha perna roça na dela debaixo da mesa do bar. Eu disse para Maria que, ah, Maria, nesses momentos, eu vivo. Eu estou vivo no contato pé-tornozelo que tem como céu o tampo da mesa. Eu vivo nesses segundos em que a sujeira do teu sapato se confunde com a gordura da minha pele.

Eu estou vivo, Maria.

Eu estou respirando através dos poros que estão grudados nos teus poros. Eu estou morando nos pelos que saem da raiz das tuas coxas e se plantam na batata da minha perna.

Eu estou vivendo, Maria. E por estar vivendo eu não preciso te ver nua. Debaixo desse palmo de pele que encosta a tua pele as minhas veias estão pulsando coladas nas tuas veias.

Escuta isso, mulher.

No meio desses copos, Maria, no meio desses corpos que só sabem cantar a mesma música da moda eu sou aquele que se embala no movimento dos teus dedinhos dos pés. Na frente desse prato eu me alimento dos plurais que tu come no final das palavras. Eu estou vivo, Maria.

Eu estou vivendo por todas as bundas que já sentaram nessa cadeira e se esqueceram da hora de ir mijar.

Eu estou vivendo por todas as pernas que já se sentiram bambas do que o pé dessa mesa.

Eu estou cronometrando a minha existência através do piscar dos teus cílios mal pintados

Eu estou nascendo, Maria. Eu estou descobrindo todas as maneiras possíveis de te penetrar a alma e não a boceta.

Eu não estou vivo, Maria.

Eu estou ardendo.

BOLO FECAL

Pedi um amor e ele me deu um bolo mofado. “Eu pedi amor”, disse.

– Isso é amor.
– Mas não vai me fazer mal?
– Talvez.

Olhei e novo e percebi uma larvinha de mosca saindo da cobertura.

– Vai querer ou não? – Ele olhava a larva também.
– Não sei. – A larvinha agora afundava cada vez mais no bolo.
– Eu não vou ficar parado o dia todo aqui, sabe.

Lembrei que não sabia cozinhar e levei o bolo para a casa. Primeiro tentei tirar tudo que se movia na cobertura, mas era impossível . Me contentei em raspar o mofo, fechar os olhos e engolir uma garfada.

Vomitei.

Dormi com o estômago roncando e acordei com dor de barriga dos infernos. Não saí de casa nos próximos três dias: sem amor, não tinha vontade de tomar banho nem de escovar os cabelos. Não queria olhar o céu e nem os olhos das pessoas. No quinto dia sem amor, não quis abrir as pálpebras muito menos as janelas da casa.

Prestes a perder as forças, olhei para a mesa e resolvi tentar de novo. O estômago reclamou, mas não devolveu. O intestino resolveu não opinar. Fui dormir indigesta e ao mesmo tempo aliviada. Pela manhã, as maquiagens do banheiro voltaram a fazer sentido. As roupas no chão pediram para serem penduradas. A maçaneta da porta pedia para ser girada e eu obedeci.

A cada passo eu sentia o estômago revirar, mas também sentia que estava viva. Segui na rua disfarçando uns arrotos enquanto olhava vitrines.

À noite, resolvi encarar o bolo de novo.

Ele não pareceu tão ruim quanto no dia anterior. Na verdade, olhando de lado nem dava para ver a parte feia. Segui comento o bolo, segui com o estômago revirado e mais importante: segui com vontade de entrar no ônibus e pagar minhas contas.

Até que o bolo acabou.

 Preocupada, fui até ele pedir mais amor. O bolo que ele me entregou estava coberto de moscas.

– Está fedendo demais. – comentei.
– É o que eu tenho.

Não consegui colocar sobre a mesa da sala, já que atraía mais moscas. Botei dentro do forno e cortei uma fatia: o cheiro era insuportável. Tampei o nariz aproximei o garfo da boca, tentando não mastigar as moscas mortas. Sabendo que não poderia ficar sem amor e nem me livrar de todos os insetos, engoli.  O estômago não roncou nem a garganta contraiu: já estavam habituados.

Quando o amor acabou, ele me entregou um prato fundo.

– Mas isso é vômito!
– Eu chamo de amor.

Entendi que era bolo vomitado e resolvi guardar na geladeira. No dia seguinte provei uma colherada antes de ir trabalhar, e, para a minha surpresa, eu já não sentia mais gosto de nada. Tomei outra
colherada à noite, pra garantir que iria ter vontade de tomar banho e sair com meus amigos.

No dia seguinte tive um pouco de febre, mas segui dando umas colheradas. Dois dias depois, a cabeça doeu. A febre voltou.

A garganta inchou.

Sem conseguir engolir o amor, fechei as cortinas e esperei a morte bater. Quando ouvi o som da campainha, suspirei aliviada.

Mas não era ela.

Não era alguém que eu conhecesse. Tinha cabelos encaracolados e trazia um prato com uma espécie de massa branca. Leve, limpa, tinha cheiro de primavera.

– Isso não é amor. – Eu disse.
– É amor, sim. – Parecia surpreso.
– Não, não é. – Eu ri.

Os olhos dele encheram de lágrimas. Antes que eu pudesse mudar de ideia, levou a torta de creme embora.

JORGE RICARDO

Jorge Ricardo esteve aqui. Jorge Ricardo esteve aqui, esvaziou o armário da cozinha e encheu meu estômago de porra. Antes disso Jorge Ricardo brincou com o gato, fumou três cigarros e derrubou suco de laranja no tapete da sala. Jorge Ricardo contou piadas ruins e gargalhou. E agora os pelos do meu gato estão virados para o lado errado como se dissessem: Jorge Ricardo esteve aqui. Agora a mancha amarela no chão da sala me conta detalhes sobre as mãos de Jorge Ricardo, delicadas como a de uma mulher. Eu deito a minha bunda na cama e o cinzeiro do criado-mudo me diz que talvez eu não devesse mentir para Jorge Ricardo que também fumo, mas as paredes respondem que precisam daquela risada esfumaçada e eu prefiro dar razão a elas. Eu fecho meus olhos sabendo que deveria estar passando veja multi-uso naquela poça do tapete, sabendo que deveria fazer uma lista com as coisas que estão faltando no armário, mas eu fecho meus olhos com mais força e resolvo ficar parada, ciente que eu deveria estender meu braço e guardar na gaveta o cinzeiro que só sei de lá quando Jorge Ricardo vem, tendo certeza de que eu deveria tirar essas latas de Heineken da escrivaninha, mas ao invés disso eu bebo o restinho delas e começo a chorar porque algo me diz que dessa vez Jorge Ricardo não volta. Algo na maneira com que ele fechou a porta me disse que seria a última vez que Jorge Ricardo derrubaria algo no meu tapete, e sabendo disso eu me levanto e pego a última garrafa da geladeira enquanto lamento ter chamado a diarista para amanhã já que sei muito bem que ela vai esfregar o tapete, abrir as janelas e tirar com a vassoura cada resquício de Jorge Ricardo desse apartamento.

Jorge Ricardo não volta, eu digo para o gato. Não adianta me olhar assim que ele não volta, eu digo de novo. Jorge Ricardo não volta. Meu gato me ignora e eu começo a chorar mais alto e me dou conta de que ou corro para o vaso ou mijo na cama. Então eu abro a porta do banheiro e sou invadida pelo cheiro quente da merda de homem. Do meu homem. Eu tranco a porta, desligo a luz e começo a respirar fundo, cada vez mais fundo, meus pulmões cada vez mais cheios de cheiro de bosta e eu cada vez mais ciente de que essa vai ser a última vez que eu respiro o cheiro do Jorge Ricardo. Eu inspiro, respiro, inspiro não sei quantas vezes até começar a ter certeza de que não sinto mais a bosta, de que meu despertador vai tocar a qualquer momento e de que eu quero permanecer nesse banheiro para sempre, quero que o dia de ontem se repita para Jorge Ricardo cagar de novo no meu banheiro, eu quero que Jorge Ricardo cague no meu banheiro por todos os dias da minha vida, eu penso, e quando o despertador começa a tocar de fato eu caio de joelhos no piso frio, me inclino para o cestinho de lixo e abro com cuidado cada papel higiênico e quando me dou conta estou lambendo eles e algo dentro de mim me diz que é como lamber o pau de Jorge Ricardo ou qualquer outra parte dele. Minha boca tritura os pedacinhos de bosta e engole os últimos pedacinhos de Jorge Ricardo que sobraram.

Eu olho para a privada e choro enquanto vomito Jorge Ricardo da minha vida.