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AUGUSTA DECIDE VIVER

Eu comprei um daqueles gravadores antigos para comprovar que ela roncava, já que só assim ela acreditaria.  Dizer que roncava ou que um unicórnio tinha passado a noite pastando no carpete do quarto dava no mesmo, sabe. Ela era meio ver para crer.

“Sessenta e cinco”, um japinha disse. Sessenta e cinco reais. Quatro velocidades. Entrada para fita. Vários botões coloridos. Não entendi nada e guardei o troco no bolso da calça.

Coloquei o gravador sobre a mesa do lado da cama e dei uma disfarçada com uma pilha de revistas Veja. Assisti dois episódios de Breaking Bad com ela e fui dormir pensando na reação dela diante da minha prova concreta e indiscutível.

Descobri que eram peidos. Longos peidos, e não roncos.

Eu não conseguia parar de rir. Na verdade, eu não conseguia nem encontrar o botão para repetir a gravação. Depois que meu estômago parou de doer, comecei a pensar se deveria contar para ela. Peidos são piores que roncos, eu acho. Mais constrangedores. E depois fiquei me perguntando como é que eu nunca tinha notado nenhum cheiro de esgoto durante esse tempo todo.

Quando ela chegou com as compras do mercado, eu estava vendo a continuação de Breaking Bad. Tentei me manter sério, mas só conseguia pensar na frase “Augusta respirando pela bunda”. Desatei a rir e mostrei o áudio.

Não sei por que eu achei que ela fosse acreditar que a gravação era dela.

Ela não só não acreditou como ficou puta por eu estar assistindo aquele episódio sozinho. Aí resolvemos colocar o gravador na cama, entre nós dois. No dia seguinte foi ela que apertou o botão de reprodução.

Os barulhos estavam muito mais altos. Na verdade, era impossível confundir aquilo com ronco. Foi meio nojento, mas muito engraçado. Ela riu um pouco, e depois me mandou admitir que era eu quem estava fazendo os barulhos.  Jurei que não, mas sem esperar que ela me levasse a sério.

Ela só foi acreditar em mim naquela semana em que voltei para o interior para ver a minha mãe. Nunca perguntei o que fez ela a ligar o gravador antes de dormir sozinha, mas acho que foi para implicar comigo depois.

Dessa vez, ela acreditou. E foi ao médico.

Impressionante como as coisas que são muito engraçadas podem se tornar muito tristes, né? Era câncer.

Quando ela ligou, foi minha vez de não acreditar. Quando ela começou a falar de quimioterapia, peguei as chaves do carro.

Como o problema era no intestino, ela ia fazer a colostomia na sexta. Colostomia é um furo que fazem do lado da barriga para que a merda saia por lá, ao invés de sair pelo cu. Foi isso que ela me disse. Eu nem sabia que isso existia, mas resolvi não fazer muitas perguntas. Ela parecia nervosa.

 Quando ela voltou da sala de cirurgia, me disseram que tinham retirado um pedaço para análise e que tudo tinha ocorrido bem.

Em casa ela me mostrou o furo. E a bolsinha.

Basicamente, a merda fica saindo o tempo inteiro pelo furo, e é armazenada em uma bolsa plástica, que fica colada na barriga. Perguntei se ela queria ajuda “com tudo aquilo” e ela me disse que não. Perguntei quando saia o resultado da biópsia, e ela falou que não sabia.

Uma semana depois ela ainda não sabia.

Decidi não perguntar mais e achei que o melhor que podia fazer era manter a nossa vida mais normal possível, fora o sexo. Não queria que ela se sentisse obrigada a nada. O problema é que ninguém fala muito sobre o quão pode ser delicado ser companheiro de alguém com câncer. O corpo dela estava debilitado, mas o meu não. E por mais que eu estivesse triste, eu precisava dar aquela gozada.

Voltei a me sentir com treze anos de novo, batendo punheta durante o banho.

Até o sabonete eu comecei a encarar de forma diferente. Já lavava a cabeça da rola dando aquela ordenhada, e acabava gozando no ralo mesmo.

Não sei se ela sabia como eu andava me aliviando, mas se sabia, não parecia se importar. Na verdade, fora essa parte, nossa rotina continuava a mesma. Víamos Braking Bad, comíamos sanduíche de peito de peru sentados na cama e dormíamos abraçados. Era bom.

Óbvio que eu sentia falta de foder, mas ela era tão linda. Tipo, linda em tudo. Foi a primeira vez que eu me dei conta o quanto eu amava de verdade, eu acho. E isso me deixava um pouco triste, principalmente durante as bronhas, ou quando ela dava uma risada meio fanha que era esquisita e bonitinha.

Eu tava na punhetinha quando ela recebeu a ligação. Sei disso porque é fácil ouvir o telefone dentro do banheiro. Ela falou por muito tempo, eu acho. E comecei a ficar preocupado.

E aí entrou dentro do box comigo de roupa mesmo, e baixou a calça. Me mandou meter no rabinho. Eu nunca fui muito de comer cu, mas passei condicionador na bundinha e mandei ver. E comer aquela rabeta quentinha depois de tanto tempo na mão foi muito bom demais. Explodi quando comecei a ver as perninhas dela tremendo de gozo.

Virei ela de frente para mim e aí percebi a bolsinha. Estava inflada como um balão. Nos secamos na  mesma toalha, deitamos na cama e choramos muito. Não precisei perguntar sobre o telefonema.

Durante a madrugada, acordei com o pau quente. Era ela, mamando. Acendi a luz da cabeceira e perguntei se ela queria mesmo fazer aquilo. Ela respondeu cospindo na minha rola e punhetando mais rápido. Quando achei que ia gozar, ela veio com a boceta e encaixou no meu cacete.

Ela sentou, uma, duas, três vezes, e a bolsinha começou a inflar. E cada sentada, eu via aquela sacolinha plástica cada vez maior. Mais redonda Eu sentia o pau no útero. As unhas fincadas. Os gemidos dela virando gritinhos. Os olhos fechados. E a bolsa. Maior do que nunca, para lembrar que daquela foda não poderia nascer outra vida. Redonda como as tetas dela. Cada vez mais inflada. Cada vez mais.

Até desgrudar do corpo dela com um som úmido que me lembrou boceta encharcada.

O cheiro quente de merda impregnou o quarto. Ela arregalou os olhos e parou de sentar. Puxei ela pelos cabelos e meti a língua dentro daquela boca. Pouco me importava a merda líquida que saia do buraco da barriga. O lençol com pequenas poças marrons.  Enfiei a língua com mais força e ela voltou a rebolar no meu caralho.

Cada vez mais forte.

Cada vez mais rápido.

Ela deitou de lado e apontou o furo da barriga.

“Come, vai.”

Olhei pro meu cacete e para aquela merda toda.  Não pensei duas vezes.

Eu queria cada buraco dela.

 

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VANISH PODER O2

Olha Gabriel, nessa vida eu só sei de duas coisas: Vanish poder O2 funciona e eu só não me matei até agora por causa do teu caralho. Então me perdoa quando eu te sussurro de madrugada que tu não me deixe, quando eu me aperto contra as tuas costas e inundo a tua camisa branca.

Porque Gabi: o teu cacete é o substituto pra arma que eu queria enfiar na minha boca. A tua porra é bala que eu queria que atravessasse no meu palato e a única coisa que me separa da forca é a tua língua na minha xota, porque é só nesse momento que o ventilador do teto deixa de ser um convite para o meu pescoço e passa a ser só mobília da casa.

Então não me deixa. Fica um pouco mais nessa cama que eu prometo rezar todos os dias pela tua rola, prometo ser devota das tuas bolas e chamar cada pentelho teu por um nome.  Goza pra mim, Gabriel, goza que cada enterrada na minha bunda é um corte a menos no meu pulso, que cada gemido teu é uma hora na cadeira do meu terapeuta, goza que o teu gozo é a hóstia que eu comungo todos as noites, cada espermatozoide teu é um grito de vida dentro dessa coisa morta que tu chama de boceta.

Goza, Gabriel. Goza pra mim. Goza em mim, goza nas cortinas, na cama, no tapete, goza nos meus olhos pra me ajudar a ver um mundo que eu não quero fazer parte. Goza em tudo, Gabriel, que depois de tu gozar eu vou por os lençóis na máquina com uma única certeza:

Vanish poder O2 funciona.

TOBA DO GATO

– Eu to pra ver. A praça ta ali ó, cheia de gente pra estuprar e os filhos da puta resolvem fazer o que? Comer o cu do meu gato. Bando de bicharoca. Tá rindo do que, Weldon?

– Nada, senhor
– Foi tu?
– Foi não, senhor.
– Então quem foi, hein? As putinhas não vão falar nada?
– Mas como é que o senhor sa…
-Como é que eu sei que comeram o Flufy? Por acaso gato caga sangue agora?
– Caga não, senhor.
– E tu caga sangue, Weldon?
– Cago não senhor.
– Quer começar a cagar?
– Não senhor.
– Não quer mas vai se não começar a falar. Quem foi?
– Quem foi o que?
– QUEM COMEU A PORRA DO CU DO MEU GATO!
– Não sei não, senhor.
– Ta certo. Já vi que com vocês não tem jeito, tem que tratar igual a bandido mesmo. Ta vendo esse celular? To ligando aqui ó, 191.
– Faz isso não seu Jader.
– Ah não faço? Na hora de enfiar a jeba pra dentro do bicho não pensaram duas vezes, não é? Já ta chamando aqui, ó.
– Foi o Maicon.
– Maicon?
– Me desculpa por favor seu Jader, por favor, eu tava carente.
-Tu vai é pedir desculpa pra toba do meu gato. Traz ele aqui, traz. Isso, levanta o rabo dele pra mim. Tá vendo o estrago? Chega mais perto, filho da puta. Ta vendo?
– To sim senhor.
– Ta vendo? Chega pertinho.
– Sim senhor.
– Agora pede desculpa então.
– Desculpa.
– Mais perto, vai.
– Desculpa.
– Tá adiantando alguma coisa? Tá vendo ele sarar?
-Ta não.
– Dá um beijinho.
– Desculpa.
-Dá um beijinho, vai.
– Desculpa por favor.
– Agora baixa as calças.
– Mas eu num…
– Eu mandei baixar as calças, filho de uma puta. Quer que eu chame os porco? Abre a bunda.
– Seu Jader…
– Abre mais a bundinha, abre.
– Eu imploro.
– Abre mais.
– Eu…
– Isso, bem abertinho pra mim. Tá doendo, é?
– Chega, por favor…
– Quer que eu pare?
– Quero.
– Quer mesmo?
– Sim, seu Jader
– Me diz uma coisa: tu gozou dentro do meu gato?
– (…)
– Gozou?
– Gozei.
– Ah é?
– Por favor.
– Mia pra mim.
– Eu…
– Mia, gatinho, mia. Mia pedindo leitinho.

E ele miou. Não sei quanto tempo o Maicon levou no rabo, mas podia levar por dez anos que o gato não ia sair da frente dele. Parecia que entendia tudo.

MARINA

Veio até meu ouvido e disse:

– A gente se vê no domingo, né?

Ela não me viu no domingo e não viu mais ninguém. A filha da puta teve uma parada respiratória às duas da tarde de sábado. Ficou me devendo um boquete.

II

Eu juro que se fosse louco (e não sou) eu abriria a minha calça no meio desse velório e colocaria meu pau na tua boca. Imagina só a cara da tua família quando me visse empurrando essa tua cabeça loira contra a base do meu cacete. Provavelmente a tua mãe soltaria um daqueles gritinhos perua-louca e teu primo me puxaria para fora da sala. “O tumor atingiu o cérebro dele”, teu pai ia dizer para os convidados e ia ligar para meus pais virem me buscar.

Mas o tumor ainda não atingiu meu cérebro e eu sei disso, tu sabia disso e nesse momento eu começo a dar umas risadinhas na frente desse teu corpo lindo e mais branco do que nunca, sei que essa minha ideia do boquete te faria se cagar de rir e por isso rio um pouco mais, percebo que as pessoas estão olhando e começo a disfarçar o riso com uma tosse louca antes que alguma tia gorda tua venha me perguntar qual é a graça.

Ninguém deveria morrer enquanto ainda consegue foder.

Eu me lembro muito bem do dia em que tu entrou no corredor com esse cabelo comprido quase encostando nas rodas da tua cadeira, lembro como se fosse ontem e olha que já passaram cinco meses, pode parecer tão pouco para esses porcos saudáveis mas para nós era tanto,  deve ser por isso que tu me deu aquele oi tímido, aposto que se as pessoas soubessem que vão morrer nos próximos meses dariam oi para todo mundo e o mundo ia ser uma espécie de Tinder da vida real. Seria ótimo.

Só sei que lá fui eu arrastar meu suporte de soro para teu lado, “quimio as segundas, quartas e sextas” foi o que tu me disse e eu admito que só conseguia olhar para as tuas tetas, nunca tinha visto alguém com câncer ter peitos tão lindos e sei que nunca mais vou ver. Tu virgem, eu virgem. Levou duas semanas para a tua língua estar dentro da minha boca e minha mão debaixo da tua blusa.

Um mês depois e o que eu mais lembro é das tuas perninhas bem abertas na cadeira de rodas, tua boceta rosada me olhando e eu me abaixando como um corcunda para forçar meu pau para dentro, se alguém entrasse na salinha de espera aquele dia iria rir desse sexo aleijado, tu segurando as pernas e eu segurando a minha rola, nunca pensei que romper um cabaço fosse tão difícil mas também nunca pensei que ia ter câncer no estômago aos vinte anos, putinha.

Tu foi morrer justo agora que eu encomendei o Kama Sutra Ilustrado para Cadeirantes no site da Amazon.  Não que a gente precisasse dele depois de ter aprendido aquela malandragem de deixar as rodas da tua cadeira destravadas. Que descoberta. Eu sentado na beirada da poltrona das visitas te embalando para frente e para trás, vou te dizer que poderia passar a tarde inteira te fodendo sentado assim. Fui descobrir que teu cabelo era peruca em uma dessas trepadas, lembra? Não acho que morto lembre. Nós rimos tanto.

Admito que pensar que essa mesma peruca que está aí no teu cadáver balançava na minha mão aquele dia me dá uma vontade de chorar, cadela. Eu começo a chorar no meio desse teu velório de merda e as pessoas me dão tapinhas nas costas, vejo que teu pai começou a dizer algumas palavras, mas não consigo prestar atenção, tu foi embora sem nunca ter provado meu leitinho e eu vou acabar indo sem saber o que é ter a rola agasalhada por uma boca quente macia, ninguém devia morrer prometendo uma merda dessas, eu até poderia pagar uma puta para me chupar, mas qual é a puta que chupa um espinhento canceroso de vinte anos sem nojo? Só tu mesmo, vagabunda.

 Percebo que teu pai está quieto e agora todas as pessoas tão olhando para mim. Como vem gente em velório de jovem, né? Devem estar todos esperando que eu diga alguma dessas baboseiras de velório, que tu era gente fina e que todo mundo gostava de ti, como se esse teu cadáver anulasse o fato daquela enfermeira da ala pediátrica te odiar pra cacete. Eles continuam me olhando e agora tenho certeza que querem que eu fale alguma coisa, qualquer coisa sobre o quanto tu era alegre e contagiava o mundo com teu otimismo, com teu caráter, com tua força de vontade até o minuto final. Filhos de uma puta. Eu olho para a cara de saúde deles e digo:

– Foi uma baita de uma gostosa.

FARELOS BRANCOS

Tô pra dizer que esses farelinhos de caspa na camisa dele me fazem lembrar que eu nunca vi neve, que fui nascer justo nessa cidade-cu que me congela o rabo todos os invernos sem fazer um floquinho, uma nevezinha, eu ligo a tevê e sou obrigada a ver esses cheira peido reclamando que hoje a neve suspendeu as atividades durante três dias, se eu acordasse e visse neve na janela eu nunca ia reclamar, muito pelo contrário, eu ia sair pela porta correndo e ficar uma foca no cio, ia agitar tanto meus braços que os vizinhos todos iam achar que eu sofro algum retardo mental, tu já viu neve? eu perguntei pra ele enquanto dava umas palmadinhas nos pedacinhos brancos que caíam nos ombros. Ele não me respondeu nada, continuou olhando pro além ou para aquela mosquinha da fruta que eu esmaguei ontem e não limpei, então eu aproveitei pra ir no banheiro para pegar um daqueles pentes bem fininhos, cheguei por trás e comecei a escovar a cabeça dele, nunca vi tanta caspa na vida e por isso voltei a pensar em gente rica e limpa fazendo guerras de neve nos seus jardins, gente rica tem jardim e tem problemas com neve, que problemão deve ser escolher o casaco certo pra sair, nossa, esses ricos são mesmo uns filhos de uma vagabunda suja, agora passando a escova cai tanta caspa que começa a juntar nos ombros, eu fico me perguntando se isso faz parte da doença e me lembro que esqueci de dar o remédio das sete, falo que já volto e aciono a tranca da cadeira de rodas dele, ando até a cozinha para amassar os comprimidos com uma colher enquanto sinto pena dele por ter uma família pão dura a ponto de não comprar os remédios em gotas, volto rápido para a sala e na corrida PLAFT! Chuto aquele banquinho indiano pela terceira vez na semana, meu dedão começa a doer pra cacete e eu derrubei todo remédio na minha calça, agora sinto pena dele e pena de mim por passar quinta, sexta e sábado cuidando de um velho caspento que não consegue nem engolir um remédio sozinho, o meu dedão começa a latejar e eu percebo que quebrei algum osso, nunca quebrei um osso antes mas tenho certeza que alguma coisa está muito fodida no meu pé, meu deus.

Volto para a sala e me sento do lado da cadeira de rodas, olho pra minha calça cheia de pó de remédio e começo a chorar, sei que vou sair daqui e ir direto pra fila de uma daquelas emergências de ossos, ortopedista é o nome eu acho, até eu sair de lá vai ser meia noite e eu não vou mais sair com José Carlos, o José Carlos vai achar que eu não quero mais ver ele e vai sair com outra, vai levar outra pra jantar e vai falar que viu a neve pra essa outra, ele nunca vai acreditar que eu quebrei o dedão do pé dando remédio pra esse velho caspento. Olho pro velho e ele continua com aquele olhar imbecil, pergunto pra ele se ele sabe o quanto eu me arrumei pra encontrar o José Carlos mesmo sabendo que ele não vai responder porra nenhuma, o velho continua olhando pra mosquinha na parede como se fosse a novela das oito, volto a olhar meu dedão e começo a ficar puta de verdade, vou ter que enfaixar esse pé e depois disso não sei como vou trabalhar subindo a escada da casa da velha que eu cuido terça, levanto e fico na frente da cadeira de rodas dele, TA SATISFEITO? Ta feliz agora que eu to fodida também? Eu começo a gritar e não paro mais, não acredito que to com vinte oito anos sendo babá de homem que usa fraldas, que eu passo a porra do final de semana medindo a pressão de uma planta, é isso que ele é, uma porra de uma planta caspenta que só sabe gastar rios de dinheiro da família, sabe o que eu faria com esse dinheiro? Eu ia pagar um curso de direito e nunca mais tocar em uma cabeça fedorenta na vida, começo a falar mais alto e acho que o velho está se encolhendo mas é impossível, ele não entende nada mesmo, continuo gritando, jogo o copo de água no chão, puta merda vou ser demitida, vou ser demitida  e aí sim não vou ter como pagar um curso pra sair desse buraco, começo a atirar todas as revistas no chão, meu dedão começa a latejar muito e eu choro ainda mais, olho pro velho e ele está olhando pra baixo, fez xixi nas calças, pelo fedor deve ter cagado também, olho para a tevê e vejo que está passando Esqueceram de mim 2, aquele pirralho está com uma pá tirando a neve da frente da casa, eu nunca vou ver a neve, NUNCA, começo a gritar e a babar mas agora já me sinto bem, muito bem, dá um alívio berrar assim e atirar as coisas no chão, agora que tudo se foda mesmo, vou ser demitida mesmo, destravo a cadeira de rodas e empurro ela até a porta dos fundos, o velho ta meio caído pro lado e olha pra frente como se visse alguma aparição, eu paro a cadeira na frente da escada de emergência, bem na beiradinha, abro o sinto de segurança dele e começo a empurrar as costas dele, bem devagar, a última coisa que eu vejo são as minhas mãos cheias de farelinhos brancos.

FILHOTE

Quando eu tinha doze anos roubei uma fralda geriátrica da farmácia do meu bairro. Nunca mais roubei nada na vida. Estava com a minha mãe e lembro de estar fazendo muito frio na rua, acho que era julho ou agosto. Nós morávamos em um apartamento minúsculo que ficava em cima de uma galeteria. Eu não ficava sozinho ainda e minha mãe precisava comprar pasta de dente, então vesti um casaco por cima do pijama e pegamos o elevador. Naquela época era muito comum eu fazer isso de botar roupa por cima do pijama, talvez porque toda hora minha mãe inventava de sair pra fazer qualquer coisa e eu queria estar sempre junto. Quando chegamos na farmácia ela lembrou de mil outras coisas que queria comprar (minha mãe adorava farmácia) então fiquei andando entre as prateleiras olhando os desodorantes, até que vi uma fralda aberta naqueles suportes que fazem propaganda dos produtos. Do lado da fralda tinha a imagem de dois velhinhos sorridentes em uma praia. Puxei a fralda do suporte e coloquei debaixo do meu casaco.

Até hoje não lembro de ter ficado tão nervoso quanto eu fiquei na hora que passamos pelo detector magnético da saída. Não consigo me lembrar de nada que minha mãe falou até chegarmos no elevador. Sei que quando entrei no quarto tranquei a porta com cuidado (raramente trancava) e coloquei a fralda encima da cama. Fiquei um tempão lá, só olhando para ela. Alguma hora criei coragem e resolvi tirar a minha calça. Até eu colocar a fralda demorou mais uma meia hora. Não queria que a minha mãe escutasse o barulhinho estranho que as fitas colantes faziam. Me lembro de ter colocado ela e ter ficado de pau duro. Levantei a andei pelo quarto sentindo o tecido macio da fralda em contato com as minhas bolas. Queria me ver, mas não tinha espelho no quarto e andar até o banheiro seria muito arriscado.

Guardei a fralda embaixo da cama e destranquei a porta. Levou um bilhão de anos até terminar a novela. Quando finalmente começou a tocar a música dos créditos ouvi a minha mãe desligar a tv na sala. Ela andou até meu quarto e me deu boa noite. Esperei outra eternidade até escutar silêncio no quarto dela. Me levantei, vesti a fralda (novamente duro) e fui para frente do espelho do banheiro. Subi no vaso para me olhar de costas e continuei duro, muito duro. Me olhei de todos os ângulos e comecei a ficar eufórico de verdade. Voltei para o quarto engatinhando. Hoje quando me lembro disso vejo o quando eu fui louco de me arriscar a ser pego de quatro andando pelo corredor com uma fralda geriátrica na bunda.

Fechei a porta do quarto e subi na cama. “Vou mijar”, pensei. E fiquei mais duro. Não ia conseguir mijar daquele jeito e cada vez que pensava em molhar a fralda começava a latejar mais. Então meti a mão pra dentro e puxei a pele para trás, esfregando a cabeça da rola no algodão. Lembro de ficar passando o pau em todas as partes da fralda. Macia. Quentinha. Gozei. Deitei de lado com o coração dando pulos. Hora do nenê fazer xixi. Relaxei a bexiga e senti a fralda absorver os dois copos de agua que tinha tomado depois da janta. Levantei da cama para sentir melhor o peso da fralda encharcada.

Passei anos juntando o dinheiro da merenda para comprar fraldas geriátricas AdultHealth tamanho M. Claro que morando sozinho as coisas melhoraram muito. Não preciso esconder pacotes no fundo do armário nem sair com fraldas sujas dentro da mochila (nunca usei o lixo de casa). Tenho a geladeira cheia de papinha e leite sem lactose. Claro que esperar todos os dias para chegar em casa e fazer pipi é um pouco perigoso. Tem dias que não consigo segurar e faço no carro. Nesses dias choro no estacionamento e depois mando lavar tudo. Quando andava de ônibus era pior.

 Mas já me acostumei. Afinal, sou só um filhote.

RECADO PARA TUA BUNDA

Esse é um recado meu para o teu cu. Eu devia estar te falando isso diretamente mas sou covarde demais, nervosa demais e por isso falo para os outros. Tu é aquela diarréia que me faz subir cada degrau do ônibus com medo de peidar. Por isso agora vou te cagar e sentir alívio, vou imprimir nossas conversas e distribuir elas no engarrafamento da Bento Gonçalves, vou pagar meu suco na Lancheria do Parque falando alto sobre o teu rabo e cada vez que alguém me perguntar se eu estou bem vou dizer que eu só estou bem quando estou dentro do teu cu, não tem verdade maior que essa e por isso fiquem sabendo: eu amo comer teu rabo. As vezes eu fico distraída e quando vi já te comi mentalmente três vezes no dia, as vezes eu durmo na cama de outros e te mando boa noite por telepatia e as vezes penso em ti com tanta força que acho que tu vai te materializar de quatro encima da minha cama.

A verdade é que a perspectiva de te encontrar me frouxa as pregas e por isso eu uso os outros de penico. Preciso desabafar essa pressão horrível que é te desejar todos os dias mesmo dando a boceta para outros homens. Acima de tudo queria que a cidade soubesse que não consigo te superar e que mesmo nós estando separados tu é meu, absolutamente meu e que pra cada mulher ou homem que beijar a tua boca eu vou acender uma vela preta na encruzilhada da esquina aqui do bairro. Como sou precavida já escolhi a roupa que vou vestir nas próximas duas semanas, então não tem maneira de tu me encontrar sofrida. Já ensaiei duas reações para caso te veja no corredor: uma para caso tu estiver acompanhado e outra sozinho. Saiba que as duas são mais falsas do que o bom dia do Antônio.

Agora se por um acaso tu esteja lendo esse texto, se por algum golpe do destino tu estiver passando calor na frente desse notebook, baixe as calças desse pijama porque o recado a seguir não é para ser lido pelos teus lindos olhos verdes, e sim pelo  teu olho de baixo:

Estou com saudades.