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JULIA

Nesse exato momento, Julia está cagando. A verdade universal é essa: toda mulher caga. Eu cago, vocês cagam, as irmãs de vocês cagam. Como Júlia, que nesse instante se encontra temporariamente ligada a agua da privada por um espesso fio de merda, tal como um bebê ligado a mãe. Provavelmente ninguém sabe que fazer cocô é uma atividade zen para ela, uma espécie de ritual que se inicia com a escolha da revista adequada e termina quando o ultimo submarino naufragar nas aguas do vaso. Pensando bem, talvez em uma sociedade diferente da nossa considerássemos bonita a cena que se passa no banheiro nesse exato momento, mas bem verdade é que o único espectador de Julia agora é Reynaldo Gianecchini segurando um relógio Swatch. Apertado firmemente nas suas mãos, nem Reynaldo propaganda, muito menos o Reynaldo carne e osso poderiam adivinhar que há poucas horas atrás Julia estava com a calcinha enterrada no cu no aeroporto Salgado Filho, sem previsão para alívio imediato em função do numero de pessoas ao seu redor, todas em busca da liberdade do cárcere aeroviário que aqui é entendida por suas respectivas malas. Quando já estava cogitando seriamente a possibilidade de dar só uma ajeitadinha por cima da calça, Julia vê sua mala. A alça falsamente anatômica se acopla rudemente aos seus dedos e ela faz a promessa pessoal de nunca mais comprar nada na Voluntários da Pátria. Trôpega para o lado em que carrega seus pertences, Julia caminha atrás de uma gorda loira para retirar seu carro do estacionamento. Enquanto conta o número de caspas do pescoço da moça, ela o vê. Não tem dúvidas de que seja ele, pois é adepta a teoria de que após ver um homem pelado várias vezes é possível reconhece-lo em quaisquer circunstancias. Subitamente uma onda de pequenos choques acomete os intestinos de Julia, que decide aumentar o passo rumo ao estacionamento, sempre olhando em direção oposta a dele. Ao apertar o terceiro andar do elevador, já esta sendo acometida por uma vontade sincera de peidar, mas é impossibilitada pela presença de um senhor grisalho que aperta o botão do quinto piso. Então uma nova meta é criada: peidar ao chegar no carro. Só faltam poucos passos, e Julia quase pode sentir a pressão anal se dissipando em forma de gás quando percebe que não está sozinha. Do lado do seu carro está ele. Milhares de frases de facebook começaram surgir em sua mente em forma de mantra, intercalados de desculpas plausíveis para não comparecer ao reencontro da faculdade que acontecerá de noite. Mas é tarde, é tarde para frases de superação e mais tarde ainda para inventar alguma frase inteligente, pois a boca dele se abre em:

–  eai…te vi ali na fila das malas, tudo bom? Vai hoje?

Tudo bom UMA MERDA, Julia está agonizando! Todo seu corpo está concentrado em apenas um doloroso ponto de pressão do seu corpo, toda Julia se resume em seu cu, Julia é seu cu, o mundo inteiro é o seu cu e tudo o que seu cu pede é: deixe-me ir. Sua boca se abre para responder Flávio, mas seu cu é mais rápido. Se algo vai abrir naquele corpo é ele, ah sim, é ele! Está indo, indo, indo!

Foi.

Com essa única resposta não verbal, entrou no seu carro. Aliviada, dirigiu até seu apartamento, encontrou a Veja da semana passada. Nesse exato momento, Julia está cagando.

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TIAGO COM H

Ele era um brinquedo antigo que alguém tinha dado corda demais, então fazia todo sentido estarmos entrando escondidos naquele museu.

 – De que olho tu não enxerga?
– Desse – apontou o direito
– Tapa o esquerdo.
– Quê?
– Tapa o esquerdo.
– Mas aí eu não vou…

Tapei um olho dele enquanto o outro me olhava sem me ver. Cheguei mais perto e procurei a língua dele com a minha. Uma língua calma que não combinava com as pernas ansiosas. Ele me agarrou pela cintura por baixo da blusa. Mordeu meu lábio.

– Quero te ver.

Mordi a boca dele de volta, tirando uma das mãos da minha cintura e fazendo ele tapar o próprio olho.

– Ainda não.

Puxei ele para o chão e aquelas pernas começaram a se mexer, então montei nos joelhos dele e tirei minha blusa. Na minha frente um olho aberto e outro tapado resultando em um homem cego para quem eu acabava de abrir o fecho do sutiã. Dois peitos cegos de mamilos olhavam para ele. Dúzias de olhos empalhados olhavam para nós.

Ele me tocou com a mão livre e me sentiu sem blusa. Mão gelada contra costas quentes. Senti um arrepio e ofereci um dos peitos para aquela boca. Me embalei na sucção forte e ritmada pensando que no final das contas todos os homens são bebês quando estão com uma teta na boca. Ele puxou meu mamilo com mais força e depois começou a dar lambidinhas na ponta recém saída para fora.

Ainda mamada por ele baixei a calcinha com a ajuda da única mão que poderia fazer isso.  Tirei o peito da boca e envolvi o rosto dele com as coxas.

– Me olha.

Uma mão saiu de um olho e uma língua entrou dentro de mim. Apertei a minha vagina contra ele, cavalgando naquela língua e implorando mentalmente para que ele não parasse, eu pensava só mais uma sentada quando ele parou, apertou minhas coxas e começou a mamar meu clitóris, dois olhos castanhos nos meus olhos castanhos me deixando suada e louca para gemer o nome dele para as paredes, para os animais empalhados, para o mapa mundi do fundo da sala.

Então ele segurou pela bunda e me colocou de quatro. Na minha frente uma águia empalhada me encarava. Ouvi ele abrir o zíper mas não vi o pau. Queria conhecer ele, tocar nele, babar nele e por isso coloquei minha mão para trás procurando pela cabeça.

– Não.

E meteu na minha boceta. Gritei.

Pingos brancos escorriam da minha perna e manchavam o chão de madeira do Museu de Arqueologia e Etnografia da UFRGS.

ANACONDA

“gosto de cervejas amargas e cafés fortes”

Tu gosta é de piroca, Eduardo. E digo mais: uma vez admitindo isso pra ti vai poder admitir para os outros e parar de fazer a mulherada da academia de trouxa. Tu até pode ter bracinhos bonitos e ombrinhos fortes, mas do que adianta isso se teu cu pisca por uma rola? E outra: sabe quem se importa com as tuas citações de facebook? Ninguém.

Eu repito: ninguém.

Se por acaso tu deixar de postar hoje essas frases que tu retira  do “frases bonitas para facebook” ninguém vai se importar. Ou tu acha que quando tu morrer alguém vai dizer: nossa, que pena que o Eduardo morreu, agora não posso mais ler aquelas lindas mensagens da Clarice? Na verdade, Eduardo, a única pessoa que poderia pensar algo semelhante é a tua mãe e até onde eu sei a tua mãe já morreu faz cinco anos, então a menos que tu ache que os espíritos acessam redes sociais apenas pare com essa palhaçada antes que as bichas comecem a falar mal de ti porque vou te contar que entre o pessoal hetero tu já está um pouco queimado. E falando em queimar, aqui vai uma dica de utilidade pública:

Pare de peidar dormindo.

Não sei se tu tem o controle disso e se não tiver te dou duas opções: nunca mais dormir com outra pessoa ao lado pelo ou encontrar alguém que também peide. Assim pelo menos vocês dois vão estar quites e vão poder ficar peidando a noite inteira até acordarem as sete da manhã, abrirem a porta e serem expulsos na próxima reunião de condomínio. Ou até alguém riscar um fósforo no andar de cima e toda Borges de Medeiros explodir. Achou rude? Porque para alguém que se recusa a comer no Van Gogh por achar muito sujo tu está podre por dentro, homem, muito podre.

Agora vou aproveitar o momento e te apresentar algo que vai ser muito útil para quando tu resolver te assumir: a chuca. Não acho que tu saiba do que estou falando, afinal, “certas coisas não devem ser discutidas”, não é essa uma das tuas citações preferidas? Vou te chocar três vezes agora porque lamento informar que é mais provável que essa frase tenha sido dita pela Inquisição católica do que pelo Renato Russo, que a propósito era veado, e que tu é uma daquelas pessoas que evita falar das coisas para tentar aparentar classe mas na verdade todos sabemos que tu é um baita de um chinelão que só sabe gastar dinheiro em whey protein. Não discutir “certos assuntos” não te faz uma pessoa de classe, te faz um gay enrustido que tem medo de ficar de pica dura ao falar sobre o quão errado é ser gay.  Voltando a chuca: é só ligar o chuveiro no modo mangueirinha e deixar entrar bastante agua nessa rede de esgoto particular. Depois force tudo para fora. Repita até a agua sair da cor dos teus olhos e não dos meus.

Mas então. Sei que já me estendi demais e que esse é o maior texto que tu lê desde que encomendou pela internet aquela bomba que não se vende no brasil, então deixo um último recado: não tem absolutamente nada de errado em ser gay. É sério. Nadinha. Na minha cabeça passa um filme com frequência e nesse filme o Roger da academia te pergunta se tu está malhando glúteo. Vocês dois estão usando bermudinhas justas e no momento em que tu responde que gostaria de estar malhando muito mais a piroca do Roger fica tão dura que aquela bermudinha fica estourando na frente. É nessa hora em que o Roger chega bem pertinho de ti, coloca um colchonete no chão e pergunta se tu está malhando de todas as maneiras possíveis. O Roger tira aquela benga para fora e tu fica mamando ele ao som de Anaconda da Nicki Minaj. Quando a música chega naquela parte que diz “oh my god, look at her but” o Roger te põe de quatro e berra my anaconda dont enquanto mete no reu rabo.

Claro que isso é um delírio meu, mas última coisa: já que tu esqueceu o Facebook logado aqui em casa mandei esse último parágrafo para o Roger como se eu fosse tu.

Ultima acréscimo: eu tô indo embora.

DANÇA DA PIROCA

O meu maior problema é que o tédio sempre me faz pensar em putaria. Então sempre que vocês me verem com cara de paisagem em sala saibam que eu estou participando de uma baita orgia. Naquela semana eu andava com uma idéia fixa então falei pro Cláudio que não conseguia parar de imaginar todos os caras para quem eu dei em fila. Depois que a fila fosse formada todos eles iam tirar as calças e eu ia ficar lá contemplando uma espécie de linha do tempo da minha boceta. Depois ia vendar um por um e colocar todos tão alinhadinhos que daria para comparar o tamanho dos paus, bem murchinhos. Aí cada um deles ia segurar a cabecinha para fora e eu ia passar pela fila com a língua para fora da boca, tocando cada um deles. Quando eu chegasse no último ia voltar até o primeiro pau fazendo a mesma coisa e depois ia me afastar. Todos eles estariam bem duros e aí eu ia poder identificar o maior, me ajoelhar e dar uma mamada como recompensa por ser tão grande. Falei pro Cláudio que a idéia já me deixava animada até ali mas o que eu pensava depois era o que estava me deixando bem louca: depois de mamar um pouquinho o vencedor eu ia pegar o cara com a menor piroca da fila e mandar ele mamar o grandão. Para não deixar aquela piroquinha órfã eu ia focar chupando aquelas bolinhas enquanto ele estivesse com a rola na boca. Todo resto da fila estaria vendado então não ia ter como saber que o maior homem da minha vida estava levando uma chupeta do menor, bem ali na frente de todo mundo. Eu ia estar tão excitada com a cena que ia ficar com uma vontade enorme de meter, mas como não meto em pau seco ia passar pela fila e formar pares, metade dos meus homens mamando e punhetando a outra metade. Todos iriam estar proibidos de gozar e de enxergar a situação então eu ia passar bem perto das duplas tocando de leve no meu clitóris. Depois disso todos estariam bem molhados e eu mandaria cada um deles sentar em uma cadeira, as cadeiras estariam formando um círculo e por isso eu ia chamar o jogo de dança da piroca. Uma música ia começar a tocar e eu ia baixar a minha calcinha e sentar na rola do homem com o menor pau até que aquela minhoquinha gozasse, aí depois ia ficar andando em volta das cadeiras, ia ter porra escorrendo pela minha coxa mas eu não ia parar de andar até que a musica se interrompesse e assim que ela parasse eu sentaria no pau do homem que estivesse na minha frente, rebolaria na piroca até ele gozar com gritinhos e partiria para o próximo, sentaria com a buceta lubrificada com a porra dos últimos homens e assim iria nesse joguinho até que que o ultimo homem gozasse, então nesse momento, eu iria mandar o meu homem de maior pau deitar no chão, iria colar a minha vagina na boca dele e forçar toda porra de todos os homens para fora, e aí sim chegaria minha vez e eu iria gozar como nenhuma mulher antes gozou na vida.

Olhei para o Cláudio e perguntei o que ele achava da minha idéia. Claudio me colocou de barriga pra cima e meteu na minha bunda. As vezes os homens não tem nenhuma criatividade.

TEU PAU DE PIJAMA

Escuta aqui, seu gordo bicha: eu consigo superar a orquídea na mesinha da sala. Sou boa nisso. Daqui a dois dias vou ter esquecido a brancura dos teus pés contra o chão do banheiro e do teu desejo secreto de ser uma revendedora da Avon. Por sorte esse mundo é composto de três bilhões de homens e três bilhões de mulheres e quem me conhece sabe que eu corto pros dois lados. Não vai ser problema encontrar as tuas rugas na cara de outros e sempre que eu boto o pé no ônibus encontro várias baleias brancas loucas para jantar no Mc Donalds. Até essa cafeteira na sala eu vou apagar da minha memória recente e na próxima vez que tomar um expresso vou estar me f-o-d-e-n-d-o para essas tuas manias de europeu tropical. Vou esquecer dos teus livrinhos organizadinhos por tamainho e vou botar a minha bunda no sofá de tantos homens que nem vou lembrar da cor de caramelo do teu. Vou tirar os óculos da cara de tantas pessoas que não vou mais saber que fiz pela primeira vez contigo.  Vou te apagar com tanta perfeição que daqui a seis meses cada gota de suor tua vai ter sido lavada por outro corpo sobre o meu.

 No final do dia eu vou deitar minhas bochechas no travesseiro com a certeza de que não resta mais nada teu em mim, absolutamente nada exceto… teu pau de pijama.

Urso. A noite estava tão convencional até o momento em que a tua calça xadrez bagunçou a ordem das coisas e eu soube que não ia encontrar um substituto para a tua rola coberta por 80 % algodão e 20 % viscose. Isso, vem comigo. Senta aqui do meu lado com esse pratinho de sanduíche que eu te explico a tara que eu tenho por uma coisa macia encostada em outra coisa macia. Deve ser como as taras que as mulheres tem por cheiro de bebê, loção de bebê e roupa de bebê, com a diferença de que eu voltei uns nove meses nesse gosto e agora falo diretamente com o instrumento. Me acompanha enquanto eu te digo que teu quarto todo vai ser reduzido a minha mão em contato com o tecido que toca no teu pau, porque nesse momento tudo que tu fez ou deixou de fazer pode e vai ser apagado, e no final das contas o que vai restar para mim não é a tua voz bonita nem os filmes que nós assistimos juntos, o que eu vou ter para sempre é essa punheta por cima da calça do pijama. Baba pra mim, baba que quando eu ver uma manchinha nesse tecido eu vou saber que chegou a hora de te segurar com mais força e esperar tu me implorar pra te tirar para fora da calça, mas eu não vou te tirar, eu vou te deixar latejar debaixo dessa estampa xadrez, minha mão agarrada na tua cabeça melada e teus olhos fechados, quanta aguinha esse pau consegue dar até que saia a porra? Baba mais pra mim, me dá esses gemidos de homem enquanto eu mamo a tua cabeça por cima do tecido, são cinco horas da tarde e eu to aqui cuspindo no teu pau sem conseguir ver ele, tu quer quadro melhor que esse? Eu continuo te chupando mas a minha vontade  é de pegar uma tesoura e fazer um buraco nessa tua calça, te fazer desfilar pelo apartamento inteiro com o pau pra fora, desfila pra mim sua puta, uma vez putinha sempre putinha e se depender de mim esse teu pau nunca mais vai sair do buraco do pijama, vou ver teu medo estampado na cara por gostar de ser minha cadela e no final do dia eu vou ser tua dona como nenhuma mulher ou homem vai ser. Mas não te assusta, piranha. A minha boca está cheia de porra e de pano e um dia eu vou ter esquecido dos móveis do tapete e do cheiro do carro, vou ter esquecido tudo, tudo, menos do teu pau de pijama.

PATA DO CAMELO

Os olhos do fatigado leitor, ao passar por um segundo no título acima, julgarão que o mesmo seja puramente metafórico. Parabéns fatigado leitor, você acertou. Sua prima de quatro anos talvez imagine um sorridente camelo de desenho animado levantando a pata, possivelmente usando botas amarelas. Mas você, não. Você é um pervertido. E para você, leitor com olheiras, pata de camelo é um sinônimo para capô de fusca. Agora uma pausa. Se você não sabe o que é capô de fusca, abandone a leitura imediatamente. Vá assistir Herbie, o fusquinha turbinado. Para os que sabem o significado de pata de camelo a parte que interessa começa aqui, com nosso amigo Davi. Como você leitor, Davi também é entendedor da metáfora do título. Portanto, também possui algum grau de maldade e, como você, acessa sites de putaria. Portanto, caso você se sinta especial por ver pornografia saiba: todo mundo vê. Enfim chegamos no detalhe que difere Davi do mundo, ou pelo menos, da maior parte dele. Ao sentar na frente de seu Facebook, ele não está procurando por loirinha levando esporrada na cara ou negão enrabado por três no ônibus. Davi bem que gostaria de se excitar com esse tipo de pornografia tradicional, mas não nasceu para isso. Somente animais fazem o pau de Davi latejar. Humanos com animais. Se você está se perguntando como ele descobriu tal inclinação, foi da mesma maneira que você descobriu sua predileção por loirinhas levando esporrada na cara. Porém, ao contrário do querido leitor, Davi não pode exercer sua sexualidade de forma plena. Nesse exato momento Davi está em uma roda de colegas de trabalho que comentam com entusiasmo sobre a bunda da nova estagiária. É claro que Davi preferia estar descrevendo as lambidas deliciosas que levou de Lulu ontem. Adoraria contar com detalhes o início de seu relacionamento com o poodle da família. Gostaria até de revelar seus truques, como passar mel na glande para atrair a cachorrinha. Pensar nisso deixa Davi duro. Quando chegar em casa vai dar uma boas gozadas na boquinha da poodle. O bom dos cachorros é que eles engolem tudo, ele pensa. Mas o que responde para os colegas é: é a estagiária tem um rabão mesmo. O comentário soa artificial. Os colegas pensam que Davi é gay. Davi vai para a casa antes de todos com a certeza de que o pessoal do escritório comenta sobre sua provável viadagem. Enquanto Lu lambe as últimas gotas de porra caídas no carpete, ele conclui que preferia ser gay. Pelo menos teria com quem falar. Se fosse gay, frequentaria boates gays, saunas gays, piscinas gays, daria pinta de gay e por isso nunca estaria sozinho.

Algumas vezes Davi odeia sua paixão por animais, mas na maior parte do tempo odeia somente a solidão. Foi um comentário dos colegas de trabalho que levou Davi a criar a Pata do Camelo, seu fórum online. Naturalmente, precisava de um nome que não chamasse atenção de denúncias. O grande problema dos amantes de animais é a vocação para o literal. É claro que uma página chamada gozandonodalmata logo sairá do ar, e Davi sabe disso. Por essa razão, ao escutar os comentários dos colegas sobre a pata de camelo da estagiária, um alarme mental tocou: era o nome perfeito. A pata de camelo levou meses para entrar em rede. Perfeccionista, Davi virou noites a procura dos disfarces perfeitos. A aparência vulgar do fórum orgulhava seu criador. Foi em uma madrugada de segunda feira que sua grande obra estreou na internet. Naquela manhã, Davi teve uma jornada improdutiva de trabalho. Passou todo o tempo imaginando os c comentários que esperavam por ser lidos no fórum. Quantos debates, quantas discussões a serem feitas! Naturalmente, também haveria o compartilhamento de imagens. Já tinha inclusive separado as melhores fotos de Lulu. De tarde, ao verificar que não havia nenhum comentário em seu fórum, Davi ficou apreensivo. Imaginando que talvez devesse criar um tópico de conversa, lançou no título o nome Lulu, e na parte reservada ao texto digitou:

Olá amigos. Tenho uma cadelinha poodle de porte pequeno. Pretendo começar a ter relações anais com ela. Alguma dica? Obrigado desde já.
Ps: ela faz 15 anos em agosto. Algum problema?

Excitado com sua dúvida, Davi chamou Lulu com intuito de aplicar uma massagem em seu anus, mas ela não quis. Frustrado, foi dormir sem gozar, imaginando seu sêmen grudado nos pelos da cadela.

A espera é enervante para qualquer pessoa. Mas possivelmente o leitor não é capaz de imaginar o quão angustiante é aguardar frequentadores de um fórum destinado à zoofilia. No terceiro dia, Davi passou por uma crise de choro, antecedida por outra frustrada massagem retal em Lulu. Definitivamente, não importava a qualidade de margarina utilizada na massagem, Lulu sempre acabava mais interessada em lamber os dedos do dono do que receber uma deliciosa massagem anal. Quinto dia. Nada de frequentadores. Nem um piu. Zero. Talvez fosse o destino de Davi viver solitário. Sexto dia. Talvez não existam zoófilos no Brasil! Angustiado, coloca a mensagem do tópico em inglês. Olha para Lulu que mastiga uma meia. Na mesma noite, tenta penetrar a cadelinha enquanto oferece os restos do frango do almoço. Sem sucesso, vai dormir com Lulu aos pés da cama. Amanhece magoado. Lulu já havia levantado da cama e estava roendo um chinelo. Vai ver que quem gosta de zoofilia só acessa a internet nos finais de semana. Sábado de tarde, decide verificar a página de meia em meia hora, pois as probabilidades de postagem deveriam ser maiores. Davi quer estar preparado quando o primeiro comentário chegar. Se imagina atencioso, cortês. Um bom amigo. Só precisa de uma oportunidade, um comentário.

Domingo: nada. Aos prantos, Davi desliga a tela de seu computador. Imobiliza Lulu e força a entrada do seu pênis no ânus da cadelinha, que treme. Intensifica os movimentos, apesar dos ganidos de protesto. Que sensação maravilhosa. Como estava úmida por dentro! Não precisa de fórum porra nenhuma, nem dica, nem nada! Ao gozar, retira seu pau já murcho.Está ensanguentado.

Lulu não late mais.

Lulu não respira mais.

Até o momento presente, nenhum comentário foi feito na patadecamelo.com.br/

AURÉLIA

De todas as coisas que eu me lembro daquela época, a primeira delas é o suco de gelatina Royal.  A segunda é o cheiro da merda do meu pai.  Então se me pedissem para contar uma história de infância (e eu não mentisse) seria mais ou menos assim:
Naquele tempo o apartamento era muito pequeno e do meu quarto se ouvia tudo. E se me perguntassem que “tudo” é esse, eu diria que é tudo que as pessoas não querem que seja escutado dentro de um banheiro. Mas eu era jovem o bastante para não entender o conceito de privacidade e curioso o suficiente para acordar todos os dias as seis quarenta e cinco manhã. É a hora que meu pai caga. Cagava. Se existir algo depois da vida, meu pai provavelmente continua acordando as seis e quarenta e cinco para cagar no além. Mas então: a vida de certas pessoas já começa de maneira mentirosa. E acho que provavelmente eu sou uma dessas pessoas, porque se perguntassem para a minha mãe que horário eu costumava acordar quando eu era criança, ela responderia “sete da manhã” com aquela voz que as pessoas fazem quando estão certas em algo. Ou acham que estão. A verdade é que eu passei todos esses anos com dois toques de acordar: o oficial berro da minha mãe e o clandestino primeiro peido da manhã. Meu pai era daquele tipo de pessoa que antes de cagar soltava um peido enorme e barulhento. Talvez outra pessoa na mesma idade e situação ficasse irritada. Talvez algum filho em um universo paralelo igual ao nosso sentisse nojo. Mas eu não. Aquele peido era o trompete de guerra de uma batalha que eu queria escutar. Era o anuncio antes do bombardeamento. E nesse momento eu já estaria com a orelha colada na parede que fazia a divisória com o banheiro me preparando para ouvir o barulho da agua sendo perfurada pela merda. Ploft. Ploft. Ploft. Três montes de merda. Três mísseis de guerra e depois uma tossida que selava a paz do vaso sanitário. Naquela época, é claro, eu não poderia adivinhar que conheceria Aurélia.
II
Na primeira vez que vi Aurélia fiquei louco com a quantidade de comida que ela conseguiu colocar para dentro. Era festa de fim de ano da escola e pensei que ela fosse uma das secretárias, porque uma professora nunca comeria igual uma porca na frente dos pais e mestres. Depois fiquei sabendo que ela trabalhava na sala de informática e me dei conta de que nunca tinha levado meus alunos para lá. Sempre achei a sala de informática estúpida e suja e continuei achando, mas comecei a levar a turma das quartas sempre que podia. Quando eu chegava ela sempre estava comendo um daqueles pacotes de Negresco e tentando disfarçar os farelos que caíam encima do teclado. Eu geralmente botava os alunos para fazer aquele exercício de escreva-o-final-da-história e ia falar alguma coisa com ela do tipo “muito movimento na sala hoje?”. Ela respondia com um “uhum” e eu ficava imaginando que ela deveria se achar muito recatada por me dar pouco papo e manter os botões daquela camisa fechados até a gola.
Levou umas oito aulas até sair comigo. Primeiro pensei em levar Aurélia em um restaurante francês metido a besta que fica perto da minha rua. Depois eu lembrei do tamanho das comidas e chamei ela pro  Petro Bembo. O Bembo é caro o suficiente para uma mulher se sentir refinada e barato o bastante para se pagar pratos grandes. Ela estava com um daqueles vestidos comportados que vão até depois do joelho e a estampa combinava com a toalha de mesa. A toalha de mesa do Bembo é uma das coisas que me faz comer lá mesmo sozinho. Mas voltando a Aurélia: pedimos dois pratos de massa e uma salada com nome pretencioso. O problema em pedir os pratos é que logo depois começa a parte ridícula de fingir interesse no que a outra pessoa está falando e esse problema duplica caso vocês trabalhem no mesmo lugar.  Foi assim que eu ouvi durante vinte minutos sobre o abaixo assinado feito para que cor de giz azul volte a ser incluída no orçamento do material escolar do próximo ano. Pelo visto eu fui o único professor que não notou a imensa injustiça que estamos sofrendo. Quando Aurélia começou a falar da importância pedagógica da cor azul comecei a calcular o número de quadrados verdes da cortina. O meu maior problema quando eu fico entediado é que eu nunca fico só entediado. Geralmente eu sinto uma puta raiva junto e uma vontade de fazer com que a pessoa se sinta mal por estar gastando o meu tempo. Enquanto eu contava todos os quadrados concordei com a cabeça todas as vezes em que eu ouvi falar em Paulo Freire e quando eu cheguei no quadrado 75 o garçom chegou com as massas. Foi então que eu lembrei porque tinha me interessado por aquela mulher.

III
Aurélia é uma daquelas pessoas que enfia enormes garfadas na boca como se estivesse comendo a única refeição do dia. Esses modos de pobre devem ter afastado mais de um homem, mas a verdade é que a cada garfada eu ficava mais louco. Se naquele momento todas as toalhas de mesa do Bembo fossem levantadas, o restaurante inteiro veria meu pau apontado para Aurélia. Esfomeada, ciscando os últimos fios do prato. Ignorante da acusação da minha piroca que pulsava a cada garfada. Quase inocente no vestido de crente que destoava com os modos de porca na mesa. Se só por um instante, por algum truque barato Aurélia ganhasse visão de raio x, veria que meu pau estava soltando as primeiras gotinhas em homenagem ao seu estômago inchado. Caso Aurélia pudesse ser comandada por pensamentos levantaria da mesa agora mesmo, baixaria a calcinha com seu pudor de evangélica e me esconderia embaixo do seu vestido. Seguro de olhos alheios, eu começaria a lamber seu cuzinho como pedido para que ela relaxasse, fechasse os olhinhos e soltasse o primeiro peidinho na minha boca. Aurélia me teria ajoelhado, suplicante por cada bolacha, cada fio de massa e cada colherada de pudim alojada no seu intestino. Quase consigo sentir o gosto da merda de Aurélia: quente, densa e adocicada. Se Aurélia prometesse comer assim pelo resto da vida eu transformaria a tampinha dessa coca cola light em aliança e a pediria em casamento.
Eu acordaria todos os dias, pelo resto da minha vida, para ouvir Aurélia cagar.